Sobre ciência e pseudo-ciência (a partir de Sven Ove Hansson) - partes I e II - 13/09/23
- Gabriel Ferreira
- 13 de set. de 2023
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Atualizado: 13 de set. de 2023
Gabriel Ferreira
Se há um conjunto de problemas que importuna tanto filósofos (da ciência, mas não só) e pessoas não especialmente treinadas, isto é, o glorioso “senso comum”, aquele que costumeiramente chamamos de “problema da demarcação” certamente faz parte dele. Isso porque o problema da demarcação, isto é, o problema que consiste em oferecer uma resposta à pergunta “há critérios que nos permitem delimitar uma fronteira entre o que é ciência e o que não é?” não possui apenas uma importância teorética, de clarificação conceitual, mas, como se viu de maneira incontornável durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, mas é composto por uma dimensão prática. Seja para distinguir entre procedimentos médicos ou fármacos aceitáveis ou não ou, ainda, para decidir se cartas psicografadas podem ter estatuto de prova no tribunal do júri, parece que poder discernir entre o que aceitamos ou recusamos sob o adjetivo de “científico” desempenha papel fundamental para além da filosofia.
No entanto, não obstante a profundidade e a miríade de facetas do problema, um dos maiores filósofos da ciência, Larry Laudan, falecido no ano passado, em um paper já clássico, afirma:
From Plato to Popper, philosophers have sought to identify those epistemic features which mark off science from other sorts of belief and activity.
Nonetheless, it seems pretty clear that philosophy has largely failed to deliver the relevant goods. Whatever the specific strengths and deficiencies of the numerous well-known efforts at demarcation (several of which will be discussed below), it is probably fair to say that there is no demarcation line between science and non-science, or between science and pseudo-science, which would win assent from a majority of philosophers. Nor is there one which should win acceptance from philosophers or anyone else;
Assim, se Laudan estiver correto, o Graal da demarcação não apenas não existe como, regulativamente, não deve existir.
Contudo, mesmo deixando de lado especificamente a dimensão mais profunda do problema epistemológico, para questões atuais relativas ao negacionismo cientifico em termos mais contemporâneos - como em movimentos antivacina ou terraplanistas - não parece suficiente adotar a famigerada asserção de Percy Bridgman: “science is what scientists do”. Mesmo que, parafraseando a taxonomia de David Chalmers, tenhamos dificuldades com o hard problem da demarcação, não parece ser pragmaticamente possível ignorar solenemente ao menos uma versão soft do mesmo problema sob o peso de simplesmente borrarmos a intuição básica que nos permite navegar com algum critério mínimo por entre crenças que competem todas por nossa adesão prática.
Por isso, ainda que o objetivo do autor seja atacar exatamente aquele juízo de Laudan apontado acima sobre o problema hard, creio que algumas ideias do filósofo sueco Sven Ove Hansson (no seu capítulo no excelente livro organizado por Massimo Pigliucci sobre o tema) podem nos ajudar ainda que seja para não falarmos bobagens no twitter.
Quero começar com a definição de ciência oferecida por Hansson:
Science (in the broad sense) is the practice that provides us with the most reliable (i.e., epistemically most warranted) statements that can be made, at the time being, on subject matter covered by the community of knowledge disciplines (i.e., on nature, ourselves as human beings, our societies, our physical constructions, and our thought constructions). (70)
Devo dizer que gosto bastante da definição de Hansson. Ela contém os dois aspectos que julgo importantes em qualquer definição de ciência seriamente construída. O primeiro é a ideia de que a ciência é uma prática, uma atividade (primordialmente intelectual, mas não só) cujo objetivo é, fundamentalmente, produzir as declarações epistemicamente mais confiáveis que podemos fazer sobre um determinado tema. Nesse primeiro ponto, a ênfase recai sobre a relação entre declarações “mais confiáveis” porque “epistemicamente” mais confiáveis. Dito de outro modo, a confiabilidade das asserções científicas advém de sua tentativa de oferecer as melhores justificativas. Assim, em última análise, a ciência é uma atividade intelectual de produção de justificativas. É precisamente por isso que o próprio Hansson ressalta que, nesse sentido (no sentido amplo, como consta no início da citação), “ciência” não diz respeito tão somente às ciências naturais e deve incluir aquelas disciplinas que têm como objetivo fornecer os mesmos “produtos”; isso inclui a sociologia, a história e a filosofia. Donde se segue também que a tarefa de fornecer as afirmações epistemicamente mais confiáveis não é tarefa exclusiva das ciências naturais. Fica para um próximo post explorar os sentidos nos quais a filosofia pode ser ciência e como ela se relaciona com as demais.
O segundo ponto, que por mais incrível que possa parecer ainda causa problemas para um grande contingente de pessoas (e a pandemia de COVID-19 nos deu exemplos claros e recentes disso) é o que Hansson consigna na expressão “at the time being”, que pode ser traduzida por “no momento atual” ou, ainda, “num dado momento”. Não é objetivo da ciência fornecer as afirmações epistemicamente mais confiáveis de uma vez por todas ou, ainda, de maneira incorrigível para sempre. A tarefa de oferecer tais afirmações epistemicamente mais confiáveis sobre o mundo depende, como dissemos, da qualidade das justificativas que podem ser aduzidas e, portanto, de sua disponibilidade num dado momento. Por isso, retomando algo que disse aqui, o argumento de que seria racionalmente justificável, ceteris paribus, não seguir a atual afirmação epistemicamente mais confiável porque, no futuro, outras podem surgir até em sentido contrário da primeira, não se sustenta. A possibilidade de que novas afirmações (até em sentido contrário às anteriores) surjam a partir de novas justificativas no futuro não enfraquece a qualidade das justificativas e das afirmações no momento atual.
Essa dinâmica é própria à ciência e esvaziá-la como “aposta”, “chute” ou “retórica” é simplesmente não compreendê-la. Caso muito diferente do que acontecem com as afirmações que vão ao largo de tal mecânica, das quais tratarei na parte II.
Referências:
Bridgman, P.W. On “scientific method.” Teach Sci 6:23, 1949.
Hansson, S. O. “Defining Pseudoscience and Science” in PIGLIUCCI, M.; BOUDRY, M. Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem. [s.l.] : University of Chicago Press, 2013.
Laudan, L. “The demise of demarcation problem”, 1983.
Parte II
Na primeira parte deste texto, apontei a importância do problema da demarcação e explorei a definição de ciência tal como articulada por Hansson. Como disse ali, se ela não é uma definição exaustiva, cumpre de maneira bastante satisfatória o papel de fornecer os elementos necessários para uma compreensão razoavelmente robusta de ciência, bem como - de acordo com o que afirmo ao final daquela parte - dá conta de dissolver o falso desafio imposto pela “mudança” histórica da ciência. Nesta parte, quero recuperar e comentar os critérios de demarcação expostos por Hansson.
Para isso, é preciso apontar alguns pressupostos que assumo aqui. O primeiro deles é que julgo não apenas ser epistemicamente possível, mas ética e pragmaticamente necessário estabelecer a distinção entre ciência e pseudociência (contra Laudan, por exemplo, tal como indiquei no primeiro post). Não estou afirmando que é fácil fazê-lo, mas apenas que parece ser possível e certamente é necessário. Em segundo lugar, assumo que tal distinção deve ser feita a partir de uma perspectiva pluricriterial, isto é, deve ser feita não apenas buscando ou confiando em um único critério necessário e suficiente e, portanto, exaustivo, mas, por tratar-se de uma distinção que necessariamente conecta-se com aspectos epistemológicos, mas também históricos e sociais, deve ser traçada articulando diversos critérios que contemplem aquelas distintas dimensões. em terceiro lugar, não penso, diferentemente de Lakatos, por exemplo, que os critérios de demarcação não possam ser aplicados a proposições ou teorias isoladas, isto é, a demarcação só poderia ser feita em teorias tomadas como um todo. Parece-me que ao menos aqui Popper tem razão: em diversos casos é possível e ética e pragmaticamente importante ser capaz de discernir se tal proposição é científica ou pseudocientífico.
Por último, um pressuposto simples, mas importante de ser explicitado: a distinção entre “ciência”, “pseudociência” e “não-ciência” (mais sobre a distinção entre “pseudociência” e “não-ciência abaixo) não é, eo ipso, um juízo moral e nem mesmo epistemológico. É evidente que há outras formas de conhecimento racional e epistemicamente confiável que não o conhecimento científico, tais como o moral ou o técnico-prático. A princípio, de “não ser científico” não se segue necessariamente “não conhecimento”, “não efetivo”, tampouco “não confiável”. Dito isso, a relação entre “ciência” e “pseudociência” é um tanto mais complexa do que entre “ciência” e “não-ciência”, mas ainda assim tal distinção, em si mesma, apenas fornece as bases para eventuais juízos de tipo valorativo. Deve-se ter em mente que, como alerta Hansson, o conhecimento (científico) se justifica por sua “fecundidade” (fruitfulness), “utilidade prática” (practical usefulness) ou ambas. Evidentemente, isso coloca em destaque também a distinção entre ciência pura (ou básica) e ciência aplicada, essencial para todos os desdobramentos dessas distinções (sobre tal distinção, veja-se FEIBLEMAN, 1961; YAGHMAIE, 2017).
Embora forneça, ao final do capítulo em questão, uma lista de sete critérios reconstruídos a partir de diversas outras listas, Hansson sintetiza o que se pode extrair de alguns exemplos paradigmáticos que fornece em três critérios:
A statement is pseudoscientific if and only if it satisfies the following three criteria:
1. It pertains to an issue within the domains of science in the broad sense (the criterion of scientific domain).
2. It suffers from such a severe lack of reliability that it cannot at all be trusted (the criterion of unreliability).
3. It is part of a doctrine whose major proponents try to create the impression that it represents the most reliable knowledge on its subject matter (the criterion of deviant doctrine). (70-71)
O primeiro critério assevera que uma proposição é pseudocientífico se ela pertence ou se dirige a um domínio coberto pela ciência em sentido amplo (relembre a definição de ciência no post anterior). Sobre este critério, duas coisas devem ser notadas: a primeira é que uma proposição é julgada como pseudocientífica a partir daquilo que é tido como (o domínio da) ciência, ou seja, ser declarada como pseudocientífica é um juízo que depende de uma boa definição de ciência. A segunda é que ela pretende disputaruma descrição, explicação ou previsão sobre algo contido no âmbito da ciência. Parece óbvio, mas não é. Uma tese ou teoria não pode ser pseudocientífico se ela não disputa sobre algo fora do escopo da ciência. Em sentido estrito. proposições morais não podem ser pseudocientíficas uma vez que são não-científicas.
O segundo critério reza que uma proposição pseudocientífica deve padecer de falta de confiabilidade (reliability). Isso significa que uma tese ou teoria pode ser científica ainda que não seja “fecunda” ou “praticamente útil”, mas não pode sê-la caso não seja confiável, isto é, não seja suficientemente justificada. O que “ser justificada” significa claramente muda nas diferentes áreas, assim como muda de acordo com a natureza e a generalidade da teoria ou tese, mas duas características parecem essenciais: uma proposição está justificada quando articula certa normatividade, isto é, diz que determinadas coisas “devem” ser tal e tal e serem causadas por fontes - experiências, forma lógica etc. - elas mesmas justificadas. Sobre a noção de justificação eu gosto muito de uma citação de Jaegwon Kim que põe em relevo o que disse:
In any event, the concept of evidence is inseparable from that ofjustification. When we talk of ‘evidence’ in an epistemological sense we are talking about justification: one thing is ‘evidence’ for another just in case the first tends to enhance the reasonableness orjustification of the second […] A strictly nonnormative concept ofevidence is not our concept of evidence; it is something that we do not understand. (KIM, 1988)
Por fim, o terceiro critério retoma algo do primeiro - a disputa acerca de algo no interior do domínio da ciência -, mas adiciona um componente novo que perfaz o que Hansson chama de “deviant doctrine”, isto é, o esforço de promover uma tese ou teoria como “o conhecimento mais confiável” sobre determinado tema ou problema, ou seja, novamente, ela disputa o posto de melhor explicação ou solução com outras e coloca-se como a tese ou teoria melhor sucedida. Ela é uma tese ou teoria desviante - por carecer de confiabilidade (científica), mas apresenta-se como não apenas não o sendo, mas como sendo a melhor ou única alternativa. Aqui é importante notar que, diferente de uma tese ou teoria que se mostra simplesmente errada (e, portanto, desiste de candidatar-se ao posto de “conhecimento mais confiável” e disputar tal posto com outras), uma tese ou teoria pseudocientífica, se ela disputa posição com outras teses ou teorias científicas concorrentes sobre ser a “melhor” ou “mais adequada” ou “mais eficaz” sobre qualquer problema ou situação x, ela satisfaz este critério mesmo que nominalmente não pretenda/afirme ser científica, uma vez que ela “cria a impressão” de ser o “conhecimento mais confiável”, mesmo carecendo de confiabilidade (segundo critério).
Novamente, o ponto de uma solução multicriterial ao problema da demarcação não é ser exaustiva, mas sim fornecer um panorama razoavelmente confiável para uma tarefa que, como disse na primeira parte, é teorética e prática. Outros critérios ou desdobramentos desses critérios podem ser acrescentados, mas creio que Hansson é bastante bem sucedido com esses três, bem como com sua definição de ciência, para os problemas que se impõem quando se trata de efetuar aquela distinção.
Referências
FEIBLEMAN, James K. Pure Science, Applied Science, Technology, Engineering: An Attempt at Definitions. Technology and Culture, [S. l.], v. 2, n. 4, p. 305, 1961. DOI: 10.2307/3100886.
KIM, Jaegwon. What Is “Naturalized Epistemology?” Philosophical Perspectives, [S. l.], v. 2, p. 381, 1988. DOI: 10.2307/2214082.
YAGHMAIE, Aboutorab. How to Characterise Pure and Applied Science. International Studies in the Philosophy of Science, [S. l.], v. 31, n. 2, p. 133–149, 2017. DOI: 10.1080/02698595.2018.1424763.
Gabriel Ferreira é Doutor em Filosofia e Professor do Programa de Pós-Graduação da Unisinos. Email: GABRIELFERREIRA@unisinos.br.



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